VIVEMOS EM UMA ÉPOCA DE TEMPOS VORAZES?

Publicado por Júlia Loureiro em 24/04/2012 às 21h06

Hunger Games, ou Jogos Vorazes na tradução em português, é um título que por si só chama a atenção. Além disso, um dos primeiros comentários que ouvi a respeito do filme atiçou minha curiosidade, afinal, dizia que se tratava de uma espécie de “Big Brother” cujos participantes eram crianças e jovens e o vencedor seria aquele que sobrevivesse, pois os jogadores, as crianças, precisariam matar umas às outras de verdade...! Aquilo me soou bem estranho, então, passei a ficar atenta às críticas e publicações sobre o filme até que resolvi assisti-lo.

            De fato, trata-se de uma história de ficção na qual após um período de intensas guerras e destruição em massa apenas uma cidade se sobressaiu passando a exercer domínio sobre outros doze distritos. Esta cidade, Panem, era a capital, lugar em que viviam os ricos e abastados, detentores dos poucos recursos que haviam restado após o caos e os doze distritos ficaram na extrema miséria, subjugados à capital em um sistema praticamente de escravidão.

 Como se isso não bastasse, anualmente, os doze distritos eram obrigados a participar dos tais Jogos Vorazes, oferecendo um casal de crianças ou de jovens para serem os participantes. Ofertar crianças e jovens eram tributos anuais obrigatórios devidos à capital em troca de subsistência. Dessa forma, vinte e quatro jovens ou crianças eram ano a ano “sorteados” e oferecidos para se digladiarem em um ambiente tecnologicamente controlado pelos produtores do “reality show”, o qual, obviamente era transmitido ao vivo, para deleite dos moradores de Panem.

Pois bem, é disto que se trata o enredo e posso dizer que é um daqueles filmes que prendem a atenção. Inclusive, ao assisti-lo (o cinema estava lotado) observei uma reação, a meu ver, rara do público dos dias de hoje: silêncio! Nenhum celular tocando, ninguém enviando mensagens de texto durante a exibição, ninguém comentando nada durante o filme... Apenas risadas esparsas e nervosas em alguns momentos.

Além disso, penso que esta temática da realização de “reality shows” nos quais as pessoas precisam matar para sobreviver, ou para vencer é atual. Assisti a dois filmes anteriores a este, “Gamer” e “A corrida mortal”, nos quais prisioneiros condenados a morte é que eram os jogadores. Contudo, em jogos vorazes foi inusitado para mim o fato de crianças serem colocadas nessa situação. Inclusive, confesso que algumas cenas me geraram certo mal estar.

Não quero dizer com isso que o fato de adultos (mesmo sendo prisioneiros condenados) serem colocados nesse tipo de disputa é menos cruel, é defensável, afinal estamos falando de seres humanos e, obviamente, uma sociedade que barbariza seus cidadãos só pode não estar bem. No entanto, penso que Jogos Vorazes faz pensar no que estamos fazendo com nossas crianças. 

Fiquei intrigada: o que esse filme quer dizer? O que ele representa da sociedade em que vivemos? O que está sendo alegoricamente encenado ali? Um “reality show” um programa de “entretenimento”, que gera ibope e gera todo o entorno com o qual infelizmente estamos até familiarizados: patrocinadores, apresentadores famosos, lucro, fotos de beldades nuas em revistas masculinas, enfim, o “bom e velho pão e circo”, como na época dos gladiadores romanos, uma conhecida forma de controle do governo sobre o povo. Só que com crianças? Com jovens que precisam matar ou morrer para deleite de uma minoria endinheirada e revolta de uma maioria submetida a tal atrocidade?

Podemos até argumentar: ah, mas que bobagem, é só mais um filme de ficção! Contudo, é justamente neste ponto que eu questiono: será que é tão ficção assim? Será que é outra roupagem para um fantasioso futuro apocalíptico? Ou será que de alguma maneira é o que já estamos fazendo com nossas crianças e nosso futuro? E digo “nós” porque estou pensando em relação às sociedades em geral.

Em termos globais, sabemos e testemunhamos através da mídia que há crianças lutando em exércitos, armadas, em meio a guerras civis. Crianças às quais é incutido o ódio e o sentimento de vingança desde o dia em que vêm ao mundo.

Ou por outra, se voltarmos os olhos para as crianças subnutridas da África, isso não é uma luta pela vida? Não é a lei do mais forte? E quanto às crianças do tráfico de drogas nas favelas do Rio de Janeiro? E as crianças da Cracolândia aqui em São Paulo? E a prostituição infantil? São inúmeros os exemplos.

Que perspectivas essas crianças têm? São tão diferentes assim das crianças dos Jogos Vorazes? É matar ou morrer, é crescer para ser “sorteada” e ir para a guerra, ou ir para as ruas, ou fazer parte do tráfico. E digo mais, que perspectiva uma sociedade que faz isso com suas crianças têm? Alguém se deleita com isso?

Sendo assim, vejo que são muitos os olhares que podem ser lançados sobre esse filme, muitos aspectos são úteis para a reflexão e pensando bem o que está ali retratado talvez não seja assim tão impossível de acontecer, certamente não da mesma maneira, mas, a alegoria que está ali representada não necessita de muito esforço para ser desvendada, afinal, trata-se de uma realidade que não está assim tão longe dos nossos olhos.

E vale lembrar, estes filmes e livros estão sendo feitos para jovens e crianças. Inclusive, dia desses, ao entrar em uma livraria notei uma jovem que devia ter entre doze, treze anos de idade lendo o livro que deu origem ao filme.  Interessante notar quão entretida a garota estava, parecia nem piscar, completamente absorta pela história e ela permaneceu ali bastante tempo, fui embora e reparei que ela ainda estava lá, no mesmo lugar.

Isso me fez pensar: o que será que esses jovens sentem quando assistem ou leem esta história? Será que se identificam? Projetam-se nas situações vividas pelos personagens? Porque, em termos de sucesso e aderência do público infanto-juvenil já está superando a saga “Crepúsculo”, outro romance de ficção que foi “febre” entre os mais jovens.

Enfim, fazendo uma analogia ao título do filme, fica aqui uma primeira conclusão de que talvez estejamos vivendo em uma época de tempos vorazes sem nos dar conta disso em muitos momentos. Penso que um filme como esse pode ser útil para chamar a atenção e a partir daí promover reflexões acerca do que estamos fazendo. Do que partilhamos? O que esse nosso mundo global e consumista ao extremo promove nas sociedades, em nós, em nossas crianças e jovens e, consequentemente, no futuro? O prognóstico não parece ser dos mais otimistas.

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? Jogos Vorazes é o título do primeiro filme de uma trilogia adaptada para o cinema e que estreou aqui no Brasil em Março deste ano. A trilogia, “The Hunger Games”, baseia-se nos romances homônimos de uma escritora infanto-juvenil norte-americana, Suzanne Collins. Seus livros “Hunger Games”, “Catching Fire” (Em Chamas) e “Mockingjay” (A Esperança) transformaram-se em um sucesso de vendas internacionais e têm sido elogiados pela crítica mundial. 

Comentários

Danilo Picucci em 08/05/2012 17:37:24
Júlia, excelente crítica acerca do tema!

Mas vou mais longe, pois refletir sobre a sociedade atual é uma comum em todas as gerações, sempre refletimos sobre a sociedade "atual", e ela sempre nos parece estranha e o futuro sempre parece sombrio.
Tenho 24 anos e ao conversar com pessoas de 30, 40 ou 50 anos, o comentário é sempre o mesmo, "a sociedade atual está em um rumo muito ruim".
Mas ao questionar como era o pensamento na década de 90, 80 ou 70, percebo que a resposta gera constrangimento, pois essas mesmas pessoas dizem que o pensamento era o mesmo antigamente, mas que vem piorando sempre....

Ai me vem a dúvida, quem moldou a geração atual, a sociedade atual, esse mundo voraz capitalista?
E a resposta é óbvia, pois a sociedade não é uma entidade, o que vivemos hoje é causado pelas gerações anteriores.

Sou administrador e vivo no centro do mundo capitalista, e vejo os gestores mais velhos com estilos de gestão que realmente são "jogos vorazes", somos jogados em uma competição constante, pressão 100% do tempo e somos obrigados a "matar" nossos concorrentes para sobreviver. Para que eu ganhe dinheiro e seja rico preciso pisar em cima de outras 10 pessoas que tem as mesmas vontades, sonhos e desejos.

Quão diferente isso é de um Jogo Voraz?!

Quem que precisa mudar para que o futuro seja melhor?

Sou otimista apenas pq vejo hoje, a minha geração com uma preocupação social muito maior, com vontade de trabalhar e ficar rico mas no processo ajudar todos a sua volta a crescerem juntos. Longe de um comunismo utópico, mas perto de um capitalismo socialista.

Parabéns novamente pelo texto!
Caio Oliveira Di Migueli em 30/04/2012 22:19:05
Oi Júlia, achei pertinente a sua crítica do filme. Também acho que ele apresenta de forma alegórica alguns aspectos das sociedades reais, antigas e atuais. O mais evidente é a política do pão e circo, como você mencionou. Em Roma era exercida com gladiadores, torturas.. Hoje com reality shows, programas de televisão estúpidos e sensacionaistas, outros com falsos anjinhos, apresentadores que doam bens e dinheiro a famílias pobres sorteadas e passam recibo de cada centavo doado... A televisão, esse poderoso instrumento de comunicação, ainda é usada muito mais para manter a população sob o domínio da ignorância (para encher os bolsos de uma minoria gananciosa e corrupta) do que para fins construtivos. Esse domínio impede muitas pessoas de classes sociais menos favorecidas de perceberem as reais causas de muitas dificuldades enfrentadas por elas em seu dia-a-dia. Um melhor uso desse instrumento, pode inclusive exercer uma forte influência na solução das situações cruéis enfrentadas por muitas crianças (e também por muitos adultos) ao redor do mundo, que você mencionou e que são de certa forma retratadas no filme. Mas, na minha opinião, tudo isso só acontecerá quando a maioria das pessoas que estão em lugares de poder (político, financeiro, religioso...) for bem intencionada, verdadeiramente altruísta. Portanto, acho que a resposta à sua pergunta sobre os dias de hoje serem tempos vorazes é sim. Mas há também muitos aspectos não-vorazes, positivos, nos dias de hoje. E acho que em tempos passados sempre houve realidades cruéis, vorazes, e também realidades bondosas, que mantiveram a esperança de dias melhores viva. E acho que no futuro não será muito diferente. Porque? Porque as características das sociedades e as coisas que nelas acontecem são fruto da índole, da personalidade, dos seus blocos construtores: as pessoas. E sempre houve, há e ainda haverá pessoas mal intencionadas e pessoas bem intencionadas. Isso é uma opinião minha..

Acho que o que está nas mãos de cada cidadão fazer em busca de um mundo melhor é manter e desenvolver seu lado altruísta, com especial ênfase na educação das crianças. Elas serão os adultos do futuro, e podem ser governantes e cidadãos melhores se trouxerem as virtudes da boa convivência desde o início da construção de seu caráter.

Também gostei do filme!
Alexandre em 28/04/2012 12:01:16
Oi Júlia, parabéns pelo artigo. Cheguei a ler algumas críticas em revistas e jornais, porém não assisti ao filme ou li o livro. Concordo com sua crítica com relação ao que nossa sociedade vem fazendo de maneira mais ou menos velada às crianças. Se faz necessário cada vez mais uma reflexão a respeito do tema e uma mudança de rota com relação a isso, mas sou otimista e acho que haverá um amadurecimento natural (mas não sem algum esforço) da sociedade rumo a épocas menos vorazes.

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