Uma Visita ao MASP

Publicado por Ana Carolina Jaen em 11/11/2011 às 21h11

Quando trabalhamos em um hospital, muitas vezes somos convidados a pensar uma prática extramuros: para além da especialidade, mas também para além dos limites espaciais da instituição. Apoiados nesse convite criamos o Atelier de Linguagem e Cotidiano (HSPM - SP), parceria entre a Psicologia e a Terapia Ocupacional (TO), oficina que possibilita visita à lugares de cultura da cidade (museus, teatros, parques, entre outros) acreditando que a experiência, para além do hospital, pode ser terapêutica. A proposta é pensada sob dois ângulos que dialogam: do ponto de vista da TO, facilitar o treino de habilidades sociais que permeiam o dia a dia e favorecem a autonomia dos sujeitos, por exemplo, como faço e do quê preciso para realizar determinada tarefa. Do ponto de vista da Psicologia apoiada na Psicanálise, visamos apreender o quê determinada experiência social desperta do repertório de linguagem de cada um, de sentido, de lembranças, de reflexões, de reposicionamento. Essa semana, o Atelier visitou o acervo permanente do Masp, que organizou as obras por temas bastante interessantes, como por exemplo, "ver e ser visto" ,  "deuses e madonas", entre outros. Vale a pena conferir. Com esse trabalho, almejamos por meio das ferramentas de cultura extrapolar o território de tratamento, fazendo da cidade um lugar para a construção singular.

Comentários

Júlia Loureiro em 19/11/2011 21:20:15
Conforme o que foi explicitado por Ana Carolina aqui no CIRCULANDO a respeito do Atelier de Linguagem e Cotidiano, venho destacar que a proposta da psicologia para este trabalho é a de fazer a palavra circular, isto é, convidar os pacientes participantes do grupo a falarem sobre a experiência vivida por eles nas visitas que fazemos aos lugares de cultura da cidade de São Paulo. Convidá-los a falar sobre o que viram, sentiram, acharam e mesmo se algum aspecto da vida deles foi lembrado é uma estratégia na tentativa de suscitar questionamentos, ?insights?, pensamentos, enfim, elementos capazes de acessar conteúdos subjetivos. A partir da fala, da escuta (ao falar eles se ouvem e ouvem também as experiências uns dos outros) e da mediação das psicólogas e da terapeuta ocupacional é possível que algum sentido a respeito de si mesmo surja. Tal proposta foi bem traduzida por uma das pacientes que veio para o atelier.
É interessante lembrar que segundo a teoria freudiana a arte é capaz de fazer liberar tensões, nela há a possibilidade de se compartilhar angústias. Para compreendermos melhor o que isso quer dizer, basta pensarmos que o artista é capaz de moldar a realidade assim como as crianças o fazem em suas brincadeiras.
A criança ao brincar protagoniza cenas e histórias inventadas por ela, de modo que aquilo a que ela está sujeita na vida real e que é difícil de lidar pode, no fantasiar, ser moldado, manejado ao seu bel prazer. Por exemplo, de filhinha ela passa a ser a mamãe, de aluna ela passa a ser a professora ou passa a ser o rei, a rainha, o herói e nesta ?inversão? de papéis o domínio da situação está em suas mãos, de maneira ativa. E nessa brincadeira novos sentidos podem surgir a respeito daquilo que é vivenciado na realidade.
O artista brinca com a realidade e com a sua arte, seja ela uma pintura, uma peça de teatro, uma música, uma escultura, ele nos convoca a protagonizar fantasias, emoções, vivências, podemos nos ver em um personagem ou nos identificarmos com uma cena, podemos achar graça ou chorar, ou ficar angustiados, concordar ou discordar com determinado desfecho de uma trama.
Voltando a experiência que temos tido com os pacientes no Atelier de Linguagem e Cotidiano vale destacar a mais recente visita que fizemos ao acervo do museu de arte de São Paulo (o MASP). Foi interessante perceber como o famoso quadro de Renoir: ?As meninas Cahen d?Anvers? (mais conhecido como ?rosa e azul?) foi destacado por quase todos os pacientes como uma das obras que mais chamou a atenção, mais suscitou debate, promoveu emoções e estimulou a imaginação a tal ponto de um deles se ver como uma das personagens ali retratadas.
Esses aspectos que aparecem na fala dos pacientes é que dão sinais, pistas, para nós e para eles mesmos sobre quais são suas identificações, quais ideais estão em jogo, como se apresentam e se representam na vida. Experiência que, aliás, pode ser muito válida para cada um de nós. E então, vamos ao teatro? Ao museu? Ao cinema?
Fica o convite para visitarmos esses lugares de nós mesmos.


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