Território do brincar

Publicado em 19/07/2015 às 21h47

Território do brincar é um filme brasileiro, estreado em Junho deste ano e que retrata crianças brincando. São crianças de diferentes idades e diversas regiões brasileiras: sertão, litoral, metrópoles e até mesmo de uma aldeia indígena.

Havia visto o trailer do filme e durante seu breve recorte, fiquei apreendida por aquelas cenas, me percebi absorta. Além disso, sobreveio certo encantamento e um sentimento misto de relaxamento e leveza.

Fiquei curiosa, fui ao cinema assistir. Então, percebi que as cenas e passagens do filme me transportaram à infância, ou melhor, ao exato sentimento que eu tinha ao brincar quando era criança. Estava novamente capturada pela fantasia e pela imaginação. Envolvida no brincar.

E o que é para a criança, o brincar criativo, senão, a vivência de transformar a realidade? Tornando-a menos incompreensível e menos concreta? O que é o brincar criativo, senão, a experiência de “moldar” a realidade conforme o próprio prazer?

O processo do brincar se dá, por excelência, no campo do simbólico, isto é, das ideias, fantasias e imaginação. Porém, possui potencial para produzir autênticas intervenções, na maneira pela qual a criança lida com a sua realidade.

 Na medida em que a criança brinca, torna-se capaz de lidar de forma criativa com a realidade e o mundo à sua volta. Por isso, com freqüência, sobrevém o efeito de relaxar as tensões e produzir alívio.

Freud bem observou o processo do brincar criativo ao notar seu neto, à época com, aproximadamente, dois anos de idade, brincando de maneira entusiasmada com um carretel preso a um cordão. O menino havia inventado um jogo no qual atirava o carretel para longe de si, até perdê-lo de vista e depois o arrastava para perto novamente e com isso, se divertia.*

 Nessa brincadeira, o neto de Freud estaria de forma simbólica, lidando com a ausência de sua mãe, a qual havia saído, mas, voltaria para reencontrá-lo mais tarde.

Voltando ao filme, várias formas de brincar, jogar e se divertir estão retratadas. Há os jogos de imitação, há as brincadeiras nas quais, o recurso que estiver à mão pode virar brinquedo e há aquelas em que o brinquedo, o objeto em si, é desnecessário, é pura fantasia.

 As crianças brincam com os recursos que têm e conforme a realidade em que estão inseridas. Há brincadeiras regionalizadas e há as “universais”, como, por exemplo, brincar de ser adulto.

Dessa forma, esse filme tão original, proporcionou revisitar minha menina e, com ela, o prazer de brincar. Atividade de efeito “relaxante”, a “calmaria”, em meio à realidade, por vezes, tão dura, incompreensível e “sisuda”: o mundo dos adultos!

Contudo, o adulto não perde a capacidade de brincar, mas, o transforma: em sonhar ou sonhar acordado, em fazer piada ou rir de sim mesmo, em transpor para as artes, a música e a literatura. Ou seja, ao abstrair.

 Enfim, brincar é sempre bem-vindo!

 

Por: Júlia Maria Candiani Rolim Loureiro Ribeiro

Psicóloga associada ao Grupo de Atenção ao Sujeito

Trabalha no Hospital do Servidor Público Municipal (HSPM)

 

Referências:

*FREUD, Sigmund. Além do Princípio do Prazer (1920) In: Obras Completas, vol. 18, Edição Standard. Rio de Janeiro: Imago, 1996

 

Veja o trailer do filme:

https://www.youtube.com/watch?v=u2fGhHGVzDE&authuser=0

 

 

 

 

 

 

 

Território do brincar: documentaristas Renata Meireles e David Reeks.

www.territoriodobrincar.com.br

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