A homo afetividade e a sociedade: a quantas anda esse diálogo?

Publicado em 12/07/2014 às 16h13

O modo pelo qual a sociedade se articula e vem se comunicando acerca da questão da homo afetividade tem sido tema de constantes reflexões para mim.

Por sinal, prefiro o termo homo afetividade à homossexualidade, pois a palavra afeto, bem como sua derivada, afetividade, por si só, não faz referência a nenhuma orientação sexual, ou de gênero e a nenhum juízo de valor à priori. Afeto é simplesmente afeto, sentimento, ou “disposição da alma” (como bem descreve o dicionário, LAROUSSE 1).

Com frequência, sabemos através da mídia, a respeito de acontecimentos, alguns deles benéficos, outros nem tanto, em relação a questões que envolvem o tema da homo afetividade. Digno de nota foram as recentes declarações da igreja católica. No ano passado, quando veio ao Brasil para o encontro mundial da juventude, o Papa Francisco disse não estar em posição de julgar os homo afetivos que buscam Deus.  

 Em sintonia com a recente declaração do Papa, em Junho deste ano, o Vaticano publicou um documento que será apresentado em uma reunião de bispos em Outubro cujo tema é a família. Neste documento, há um notável vislumbre de uma possível mudança de postura da igreja católica em relação ao modo como a igreja e seus representantes devem procurar lidar com os fiéis homo afetivos daqui em diante, a saber, com maior respeito, cuidado e sem juízos de valores. Interessante saber que esse documento foi resultante de uma pesquisa realizada em dioceses de todo o mundo.

A igreja católica pode ainda não ter tido uma real mudança de postura em relação a polêmicas, como o casamento homo afetivo e a adoção de crianças por casais do mesmo sexo, porém, tem se pronunciado acerca desses temas com mais frequência e maior naturalidade o que, a meu ver, promove o debate social, pois faz esses assuntos circularem, as pessoas se questionarem e, quem sabe, ficarem menos alheias e preconceituosas.

Um outro fato interessante a que tive acesso, e que, do meu ponto de vista, tem contribuído para promover o debate e a dissolução das ideias pré-concebidas em relação a homo afetividade, são alguns vídeos que têm circulado amplamente nas redes sociais, cuja a proposta é registrar as reações de crianças e jovens ao saberem da existência de relacionamentos e casamentos homo afetivos.

Em um desses vídeos, é dito a um menino que existem homens que se casam com homens. Já em outro vídeo, crianças e adolescentes assistem a vídeos nos quais há propostas de casamentos homo afetivos: uma mulher pede a companheira em casamento ou um homem faz a proposta a seu companheiro. A reação e a fala das crianças são registradas.

Ao assistirmos aos vídeos é possível refletir sobre as gerações mais jovens que, em geral, parecem expressar bem menos juízo de valor às gerações mais velhas. Veem e sentem a existência da homo afetividade com maior espontaneidade e convivem com essa realidade com maior naturalidade. Penso que isso pode já ser resultado de uma abertura e uma maior flexibilização, sensibilidade e mobilização social para a questão.

A sexualidade no sentido afetivo da palavra, ou, como bem nos ensina Freud, em seu sentido “libidinal”, ou de força vital, permeia todas as relações, perpassa todos os vínculos e guia as ações humanas, sejam elas conscientes ou inconscientes. Portanto, a homo afetividade é um assunto concernente à vida e a todos nós e, sem dúvida, é de interesse social.

No meu entender, o preconceito, não é dado, não nasce com os afetos e sim, é aprendido. O masculino e o feminino não são puramente definidos somente pelas características biológicas e nem tão pouco apenas pelos hormônios.

O que concerne ao universo feminino e ao universo masculino é aprendido, pertence ao simbólico e, portanto, ao universo da linguagem, do que é ensinado, transmitido consciente e inconscientemente pelas gerações, a família, a escola, a cultura, enfim, a sociedade na qual o sujeito está inserido. O aprendizado do que é certo, errado, melhor, pior, bonito, feio, o que é de menino, o que é de menina, o que é ser homem, o que é ser mulher está imerso na cultura.

Sendo assim, essas são questões fundamentais para continuarmos analisando, apreciando e formando nossas opiniões. Os fenômenos sociais acontecem todos os dias, diante de nossos olhos e se entrecruzam, “conversam” com nosso cotidiano, com cada um de nós, seja enquanto cidadãos, profissionais, pertencentes a essa sociedade e realidade ou a determinada religião e família, seja em relação a nós mesmos, à própria sexualidade e às reações que temos diante da expressão da sexualidade das pessoas com as quais convivemos.

 

Por: Júlia Maria Candiani Rolim Loureiro Ribeiro

Psicóloga associada ao Grupo de Atenção ao Sujeito

Trabalha no Hospital do Servidor Público Municipal (HSPM)

 

 Referências

1 Minidicionário LAROUSSE da língua portuguesa. 3ª edição

 Link de referência Web Site, Globo, sobre o documento do Vaticano.

 http://oglobo.globo.com/sociedade/gays-seus-filhos-nao-deveriam-sofrer-discriminacao-da-igreja-diz-vaticano-13039080#ixzz35zL7CYwb

Vídeos referidos no texto:

http://www.youtube.com/watch?v=SQnbvkjw8Uk

http://www.youtube.com/watch?v=-9msJmUGQws

 

Comentários

Paula em 27/07/2014 19:05:20
Muito legal o texto, Júlia, parabéns!

Concordo com você quando diz sobre a importância do pronunciamento de diferentes instâncias refletindo sobre o tema. Acredito que é a partir desta discussão que se pode compreender o fenômeno de um jeito mais amplo e menos pré-conceituoso.

E o vídeo é muito bom também!!
AUGUSTO ROLIM LOUREIRO NETO em 20/07/2014 15:26:53
Precisamos de mais textos como este para colaborar com uma nova consciência do que é ser humano!

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